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A crise da educação e a necessidade de recuperar o sentido

Alessandra Batista 7 de julho de 2026 5 minutes read
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Foto: Getty Images

Muito se discute sobre inteligência artificial, metodologias ativas, plataformas digitais, avaliações em larga escala e novas competências para o século XXI. Embora esses temas sejam relevantes, eles frequentemente desviam a atenção de uma questão mais profunda: a educação vive uma crise que não pode ser resolvida apenas por reformas metodológicas ou avanços tecnológicos. Trata-se, sobretudo, de uma crise de sentido.

Durante muito tempo, a escola foi reconhecida como o espaço de transmissão da cultura, da formação intelectual e da preparação das novas gerações para a vida em sociedade. Hoje, entretanto, espera-se que ela responda a demandas cada vez mais numerosas: formar para o mercado de trabalho, desenvolver competências socioemocionais, promover inclusão, acompanhar as transformações tecnológicas, resolver conflitos sociais e atender às expectativas das famílias. Em meio a tantas exigências, a instituição escolar corre o risco de perder a clareza de sua própria finalidade.

Essa realidade foi antecipada por Hannah Arendt ao afirmar que educar significa assumir responsabilidade pelo mundo. Cada geração recebe um patrimônio cultural, histórico e moral construído ao longo do tempo e tem o dever de apresentá-lo aos mais jovens. Quando os adultos deixam de acreditar no valor desse legado ou renunciam à responsabilidade de transmiti-lo, instala-se uma ruptura entre passado e futuro. A escola deixa de ser um espaço de formação para tornar-se apenas um lugar de adaptação às exigências imediatas da sociedade.

Ao descrever a modernidade líquida, Zygmunt Bauman, demonstra como as relações humanas, as instituições e as referências culturais tornaram-se marcadas pela instabilidade e pela transitoriedade. A educação também foi atingida por esse processo. O conhecimento passa a ser tratado como um bem de consumo, rapidamente substituído por novas informações, enquanto a formação humana perde espaço para a busca de resultados imediatos e competências voltadas exclusivamente para o desempenho.

Nesse cenário, professores enfrentam o desafio de ensinar estudantes que vivem conectados a um fluxo permanente de informações, mas que, muitas vezes, encontram dificuldades para refletir, aprofundar conhecimentos e construir vínculos duradouros. Ao mesmo tempo, a escola passa a ser vista, em alguns contextos, mais como prestadora de serviços do que como uma comunidade educativa. O estudante transforma-se em cliente, e o sucesso escolar é frequentemente medido apenas por indicadores quantitativos.

Reconhecer esses desafios não significa defender um retorno nostálgico aos modelos escolares do passado, nem acreditar que toda inovação represente, por si só, um avanço. A escola precisa responder às profundas transformações culturais, sociais e tecnológicas do nosso tempo, preservando, contudo, aquilo que constitui sua razão de existir: formar pessoas capazes de compreender a realidade, pensar criticamente, estabelecer relações significativas e assumir responsabilidade pela construção do mundo comum.

Isso exige uma revisão das práticas educativas, mas também uma reflexão sobre seus objetivos. Durante muito tempo, o debate educacional concentrou-se nas metodologias, nas avaliações e, mais recentemente, nas tecnologias digitais. Embora esses aspectos sejam relevantes, eles não substituem a necessidade de responder a uma questão anterior: qual é a finalidade da educação? Sem essa resposta, qualquer reforma corre o risco de aperfeiçoar os instrumentos, mas perder de vista o propósito que lhes dá sentido.

Entre as mudanças necessárias está a valorização da formação integral. A escola deve cultivar o pensamento crítico, a sensibilidade ética, a capacidade de diálogo, a responsabilidade social e o compromisso com o bem comum. Em uma época marcada pela velocidade da informação, ensinar a refletir tornou-se tão importante quanto ensinar a conhecer.

Também é fundamental fortalecer a autoridade pedagógica, compreendida não como autoritarismo, mas como reconhecimento da competência, da experiência e da responsabilidade do educador. Da mesma forma, a relação entre escola e família precisa ser reconstruída em bases de cooperação, reconhecendo que a formação das novas gerações depende da corresponsabilidade entre ambas.

As transformações tecnológicas devem ser incorporadas ao processo educativo, mas sem substituir aquilo que constitui a essência da aprendizagem: o encontro humano. Nenhuma plataforma digital é capaz de ocupar o lugar do professor que inspira, orienta, questiona e acompanha o desenvolvimento de seus estudantes. A tecnologia amplia possibilidades, mas não substitui a experiência do diálogo, da convivência e da construção compartilhada do conhecimento.

A crise da educação, portanto, não será superada apenas com novas metodologias, equipamentos ou reformas curriculares. Ela exige uma renovação da compreensão sobre o papel da escola e sobre o tipo de sociedade que desejamos construir. Antes de perguntar quais tecnologias utilizar ou quais competências desenvolver, talvez seja mais urgente responder à pergunta que fundamenta todas as outras: que tipo de ser humano queremos formar? Enquanto essa questão permanecer sem uma resposta clara, continuaremos aperfeiçoando os meios, mas deixando em segundo plano a verdadeira finalidade da educação: o pensamento crítico, a ética, o diálogo, a responsabilidade social e o compromisso com o bem comum.

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