Na tarde desta terça-feira, 12, um dos símbolos mais tradicionais da comunicação de Santos Dumont deixou de fazer parte da paisagem da cidade. A antiga torre de transmissão em AM da Rádio Cultura foi ao chão, encerrando silenciosamente um capítulo histórico que atravessou gerações de ouvintes.
Mais do que uma estrutura metálica, a torre representava memória, companhia e pertencimento. Durante décadas, foi por meio dela que vozes chegaram aos lares, às fazendas, aos caminhões nas estradas e aos rádios de pilha espalhados pelos cantos da região. Era o elo invisível entre a emissora e milhares de pessoas que fizeram da 1580 parte da rotina diária.
Fundada em 17 de agosto de 1948, a Rádio Cultura nasceu em uma época em que o rádio era a principal ligação entre as pessoas e o mundo. A emissora construiu sua história baseada em jornalismo local, utilidade pública, esporte, cultura e, principalmente, proximidade com a comunidade.
Para muitos moradores, bastava olhar para a torre para lembrar de uma época em que o rádio ocupava o centro da casa. Sua programação começava pela manhã acompanhando o café passado na hora com o Jurandir informando as horas com “os cabos de machado” e procurando a galinha Wagneia, alguns dizem Baguiné, ou Maguiné, a controvérsia permanece viva na memória popular. As músicas embalavam os fins de tarde. As transmissões esportivas faziam famílias inteiras se reunirem ao redor do aparelho. E na madrugada era a companhia certa para os solitários ou insones.
A história da Rádio Cultura se confunde com a própria história da comunicação regional. Nos tempos do AM, a emissora construiu uma relação profundamente afetiva com os ouvintes. O alcance das ondas médias permitia que sua programação ultrapassasse fronteiras, chegando a comunidades rurais e cidades vizinhas numa época em que a informação ainda viajava devagar.
Foi ali que muitos locutores eternizaram seus nomes. Foi ali que campanhas solidárias mobilizaram a população. Em que músicas marcaram amores, despedidas e reencontros. Foi ali que anúncios simples ganharam valor humano, afinal hoje você sabe “porque Adão não se vestia… era porque o Tineca não existia…”
Ao longo de mais de sete décadas, a Cultura tornou-se parte da identidade da “Terra do Pai da Aviação”. A emissora acompanhou transformações políticas, sociais e culturais da cidade, noticiou acontecimentos históricos e abriu microfone para a população em momentos de alegria e também de dor.
A força do AM permitia que o sinal da rádio atravessasse cidades e zonas rurais, alcançando ouvintes em municípios vizinhos como Ewbank da Câmara, Oliveira Fortes, Aracitaba, Bias Fortes, Paiva, Tabuleiro, Mercês e até regiões próximas de Juiz de Fora e Barbacena. E talvez esse tenha sido o grande diferencial da Rádio Cultura: ela nunca foi apenas uma emissora. Ela sempre teve sotaque local, rosto conhecido e voz familiar.
Os comunicadores eram da cidade, e ainda são. Conhecem os ouvintes pelo nome. Falam dos problemas reais da população. Anunciam aniversários, falecimentos, festas religiosas, campeonatos e acontecimentos cotidianos que, para muita gente, é até mais importantes que as notícias nacionais.
Com o passar dos anos, porém, a evolução tecnológica transformou o rádio brasileiro. A migração das emissoras AM para o FM trouxe mais qualidade sonora, modernização e novas possibilidades de comunicação. A Rádio Cultura acompanhou esse movimento, reinventando-se sem abandonar sua essência.
Em fevereiro de 2023, a emissora viveu outro marco histórico ao migrar oficialmente do AM para o FM, passando a operar em 90,1 MHz. A mudança representou modernização, melhoria na qualidade do áudio e adaptação às novas formas de consumo de conteúdo.
Acompanhando a mudança do alto do Boa Vista, a velha torre AM, instalada em 1984, permanecia lá, imponente, quase como uma guardiã silenciosa da memória da emissora. Como um monumento de uma era em que o rádio tinha chiados e interferências, mas uma proximidade que nenhuma tecnologia conseguiu substituir.

A queda da torre, nesta terça-feira, não representa apenas o fim físico de uma estrutura. Representa a despedida definitiva de uma era do rádio brasileiro.
Para quem viveu o auge do AM, o momento inevitavelmente emociona. É como ver partir um velho conhecido que acompanhou a cidade durante décadas. A torre resistiu ao tempo, às chuvas, aos ventos e às transformações da tecnologia. Agora, sai de cena deixando para trás lembranças que nenhuma demolição será capaz de apagar.
Mas toda despedida também carrega recomeços.
Sua derrubada não significa esquecimento. Pelo contrário. Ela representa a confirmação de que a Rádio Cultura conseguiu fazer aquilo que poucas emissoras tradicionais conseguiram: atravessar o tempo sem perder a alma.
A FM 90,1 entra agora em uma nova página de sua trajetória, carregando consigo o legado construído no AM 1580, mas olhando para o futuro com a mesma missão de sempre: informar, emocionar e estar perto das pessoas.
Porque o rádio, assim como algumas histórias nunca termina de verdade.
Apenas muda de frequência.
Muda de plataforma.
Muda de tecnologia.
Mas nunca deixa de ser companhia.
E talvez seja justamente isso que a velha torre tentou nos lembrar até o último instante em pé: algumas conexões não dependem de antenas para continuar existindo.
