A terça-feira, 24 de fevereiro, amanheceu diferente para os moradores da Zona da Mata mineira. Acostumados aos transtornos das chuvas de início de ano, que alagam ruas e dificultam a rotina, desta vez a tragédia não veio de longe, como tantas vezes noticiada em outros estados. Ela bateu à porta.


Em Santos Dumont, às 10h23, a população foi surpreendida por um alerta extremo da Defesa Civil. A mensagem, enviada por meio de tecnologia desenvolvida pela Anatel em parceria com as principais operadoras de telefonia, avisava sobre alto risco de deslizamentos. O sistema, utilizado pela primeira vez na cidade, emite som e vibração mesmo em aparelhos no modo silencioso, alcançando todos que estejam na área de risco, sem necessidade de cadastro prévio.
O aviso levou escolas a anteciparem a saída dos alunos e, em alguns casos, suspenderem as aulas também nesta quarta-feira, 25, já que a previsão de fortes chuvas persiste. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) classificou a situação como de “grande perigo”, com acumulados que podem ultrapassar 100 milímetros por dia em regiões da Zona da Mata, Vale do Rio Doce e sul de Minas, aumentando o risco de alagamentos, transbordamentos e deslizamentos.

O trânsito na BR-040 foi afetado, com ônibus intermunicipais retidos. Em Conceição do Formoso, um deslizamento comprometeu a estrutura de uma residência já interditada, forçando a saída dos moradores. Em Cachoeirinha e próximo à Usina, novos deslizamentos bloquearam estradas interditando uma das vias de acesso ao distrito de São João da Serra.
As fortes chuvas desta segunda e terça-feira que atingeiram a região, deixaram mortos e desabrigados em Juiz de Fora e Ubá.
Tragédia em Juiz de Fora
Em Juiz de Fora, o cenário é ainda mais grave. Após o transbordamento do rio Paraibuna e a abertura de uma cratera no Acesso Norte, a prefeitura decretou estado de calamidade pública.
A tragédia foi prenunciada pela abertura de uma cratera no Acesso Norte, que interditou um trecho da Avenida Garcia Rodrigues Paes após o temporal de quinta-feira, dia 19. O rio Paraibuna transbordou, a Avenida Brasil foi tomada pela água. E a prefeitura de Juiz de Fora decretou estado de calamidade pública.
Até agora, 23 pessoas morreram, 36 estão desaparecidas e cerca de 3 mil ficaram desabrigadas. Devido à possibilidade de novos temporais, cerca de 600 moradores, que não tiveram as casas afetadas, foram orientados a evacuar os imóveis preventivamente. Escolas públicas foram disponibilizadas para abrigo.

Os bombeiros já resgataram quase 100 pessoas com vida, incluindo uma mulher de 32 anos que foi resgatada após ficar soterrada dentro de casa, no bairro Paineiras, região Central da cidade. Enquanto isso um pai procurava por sua filha de seis anos desaparecida em deslizamento de terra no bairro Parque Burnier. Uma criança de quatro anos foi resgata com vida no mesmo local, o que dá esperanças ao pai da pequena Sofia.
O transporte coletivo urbano está suspenso nesta quarta-feira, 25 e as aulas da rede municipal e na Universidade Federal de Juiz de Fora, UFJF, foram canceladas até quinta-feira. Ao comércio, a prefeitura orientou que cada comerciante avalie as condições de segurança antes de abrir os estabelecimentos.
Ubá em Calamidade
Em Ubá, 170 milímetros de chuva em apenas três horas elevaram o rio em quase oito metros. Cinco prédios desabaram, três pontes foram destruídas e carros foram arrastados por quilômetros. A cidade contabiliza sete mortes e três desaparecidos. O prefeito José Damato classificou o episódio como “a maior tragédia da história” do município. Na cidade também foi decretado o estado de calamidade pública.

Enquanto os comerciantes avaliavam os prejuízos causados pela enchente um video flagrou um homem que tentou se aproveitar da situação para levar uma caixa de som, mas foi impedido por policiais militares que faziam um patrulhamento no local no momento do incidente. Ele foi repreendido, mas não foi detido devido à situação de calamidade.
Além deste, outros videos circularam nas redes sociais, como o momento em que um prédio desabou, caixões de uma funerária sendo levados pela enchente e um lar de idosos no centro da cidade que foi invadido pela água, o vídeo mostra ao menos três idosos atendidos no local deitados em colchões que boiavam sobre a água. Moradores vizinhos do lar de idosos ajudaram no resgate levando-os para o segundo piso do imóvel, onde a água não chegou. Ninguém se feriu e os idosos passam bem. A água subiu cerca de dois metros, e provocou a perda de todos os móveis.
Matias Barbosa debaixo d’água
A prefeitura de Matias Barbosa também decretou estado de calamidade pública. A cidade, que fica a 20 km de Juiz de Fora, também ficou debaixo d’água. Moradores ilhados foram resgatados de barco e helicóptero. Na cidade, com cerca de 13 mil habitantes, 160 pessoas estão desalojadas e 35 desabrigadas que foram levados para escolas municipais que foram transformadas em abrigos e pontos de arrecadação de doações para as famílias.

Luto oficial de três dias
O governo de Minas decretou luto oficial de três dias e reforçou as equipes de busca com bombeiros de Uberlândia e Uberaba. As buscas pelos desaparecidos seguem, com o apoio de cães farejadores e equipamentos capazes de identificar pontos de calor, porém, a possibilidade de novos deslizamentos nas áreas de encosta, devido à previsão de mais chuva, desafia as buscas dos bombeiros.
O governador Romeu Zema, e o vice Mateus Simões, chegaram estiveram nesta terça à Juiz de Fora para acompanhar os trabalhos de resgate. Na quarta-feira irão a Ubá para vistoriar os danos no polo moveleiro e áreas residenciais.
O governador enfatizou que o Estado está empenhado em uma força-tarefa total para socorrer as cidades afetadas.
Presidente manifesta solidariedade
O presidente Lula ligou para a prefeita de Juiz de Fora, Margarida Salomão para prestar solidariedade, enquanto o vice-presidente, Geraldo Alckmin anunciou, em entrevista coletiva, um conjunto de medidas emergenciais para atender as pessoas e os municípios atingidos, como a antecipação do Bolsa Família, do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e a liberação de um auxílio às prefeituras no valor de R$ 800 por pessoa desabrigada. O valor será repassado pelo Ministério do Desenvolvimento Social para que as administrações municipais façam investimentos emergenciais como compra de colchões e suprimentos.
Solidariedade
A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, a FIEMG, anunciou, a doação de um milhão de reais, que deverá ser destinado às famílias por meio do Serviço Social Autônomo, Servas, que atua na linha de frente para garantir que a ajuda chegue de forma rápida e efetiva aos pontos mais críticos.

Mobilização e arrecadação
Diante rastro de destruição deixado pelo temporal várias campanhas de solidariedade começam a ser montadas para atendimento a vítimas atingidas.
Dentre os itens que podem ser doados estão: água, alimentos não perecíveis, roupas, calçados, cobertores, itens de higiene pessoal e materiais de limpeza.
Pontos de arrecadação em Santos Dumont:
Agência Sicredi – Avenida Presidente Getúlio Vargas, nº 171 – Loja 1, Centro
Gomes Imóveis – Rua Afonso Pena, nº 105 – Centro
Academia Shape Me – Rua Josefina Ladeira – Centro
Avenida Rui Barbosa, 214 – Centro (Paola)
Loja Campos Store – Rua Sergio Neves, nº 152 – Centro
Loja Multi Shopping Car (Atrás da Rodoviária) – Rua Vieira Marques, nº 158, Centro
Espaço Thalita Carvalho – Praça Cesário Alvim, nº 33 Loja 4, Centro
Heveline Motos – Rua Ayssar Salomão Couri, nº 89 (Antiga Honda), Centro
TP STORE – Rua Sérgio Neves, nº 78, Centro (água e material de limpeza
GR Centro de Treinamento – Avenida Presidente Getúlio Vargas (atrás da Rodoviária), Centro
Rua Ewbank da Câmara, nº 224 – Vila Esperança
Rua Dona Flauzina, nº 98, São Sebastião (Sula)
