
Prof. Robson Ribeiro
A recente controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida revela um
problema que ultrapassa a disputa entre partidos e candidatos: a crescente
presença da política em espaços que pertencem à religião, à consciência e à
experiência afetiva das pessoas. Nossa Senhora Aparecida não é apenas uma
devoção católica; sua imagem integra a história e a memória cultural de
milhões de brasileiros. Por isso, colocá-la no centro de uma disputa eleitoral
significa tocar em sentimentos profundos de pertencimento, proteção e
identidade.
É justamente nessa dimensão que aparece uma questão sobre a condição
humana. Não vivemos apenas de argumentos racionais. Precisamos de
símbolos, vínculos e referências capazes de nos oferecer sentido diante das
incertezas. A religião ocupa esse espaço e, por isso mesmo, pode ser
facilmente incorporada à linguagem política. Quando uma questão política é
apresentada como ameaça ao que alguém considera sagrado, a reação deixa
de ser apenas racional e passa a envolver medo, identidade e pertencimento.
Por isso, quando símbolos ou questões da Igreja entram no centro de uma
disputa pública, cabe também à própria Igreja comunicar-se com clareza.
Informações sobre sua tradição e seus reconhecimentos oficiais não deveriam
depender de interpretações partidárias, comentários nas redes sociais ou
interesses eleitorais. Uma palavra institucional, objetiva e serena pode evitar
que a religião seja arrastada para conflitos que não lhe pertencem.
Nossa Senhora Aparecida possui uma história muito maior do que qualquer
eleição. Sua importância não depende de partido, candidatura ou disputa
ideológica. Preservar a religião dessa disputa não significa afastá-la da
sociedade. Significa reconhecer que ela possui uma contribuição própria para a
vida pública e que nenhum projeto político pode reivindicar para si aquilo que
pertence à consciência e à experiência de fé de milhões de pessoas.

