Um homem muito além do seu tempo. Sem dúvidas, João Augusto Conrado do Amaral Gurgel pensou no futuro. Sonhou com um carro genuinamente nacional. Viveu na época errada. Quando ninguém falava em falta de espaço nas ruas e trânsito tumultuado, investiu na fabricação de modelos compactos e econômicos como o BR-800 e o Supermini.
O sonho de fabricar um carro surgiu ainda na juventude. Ao se formar na Escola Politécnica de São Paulo, apresentou como projeto final um pequeno veículo de dois cilindros chamado Tião. Quase foi reprovado. Ouviu de um professor que carro não se faz — se compra. Com todas as dificuldades, provou ao mestre que ele estava errado. Era só o começo de uma longa batalha por um ideal.
Estudou nos Estados Unidos, virou empresário do ramo de plásticos e fundou a Gurgel Motores S.A. em 1969. Produziu veículos utilitários e especiais com destaque para o BR-800, equipado com o motor Enertron, de concepção própria.
Mas o sonho enfrentou obstáculos. A abertura do mercado brasileiro nos anos 1990 trouxe concorrência feroz das multinacionais, que ofereciam veículos mais modernos e baratos. A Gurgel, sem apoio governamental contínuo e com dificuldades para obter peças e financiamento, não resistiu. Em 30 de setembro de 1996, a empresa encerrou oficialmente suas atividades. Foram cerca de 30 mil veículos produzidos ao longo de 27 anos.
MUITO ANTES DA BYD
O Brasil ousou sonhar com a possibilidade de um carro elétrico.

Em 1974, Amaral Gurgel apresentou o Itaipu E150, o primeiro carro elétrico 100% brasileiro e da América Latina. Com design geométrico e espaço para duas pessoas, o modelo enfrentava desafios como autonomia limitada, peso elevado das baterias e tempo de recarga longo. Ainda assim, Gurgel insistiu e lançou em 1980 o Itaipu E400, um furgão elétrico voltado para empresas estatais.
Décadas depois, o mundo finalmente abraçou a mobilidade elétrica. Montadoras como a BYD, fundada na China, tornaram-se líderes globais em veículos elétricos, com produção em larga escala, tecnologia avançada e presença crescente no Brasil. Enquanto Gurgel vislumbrava esse futuro nos anos 70, a indústria nacional não ofereceu o suporte necessário para que o sonho prosperasse. O Itaipu é hoje lembrado como um símbolo de inovação precoce — um projeto que poderia ter colocado o Brasil na vanguarda da mobilidade sustentável.
Hoje um veículo Gurgel é altamente valorizado no comércio de automóveis antigos. Modelos raros como o Gurgel Motomachine e Itaipu E-400 podem custar até R$100.000,00 reais. Um modelo BR 800 em bom estado está avaliado em aproximadamente R$13.000,00 reais segundo a Tabela Fipe.
Sofrendo do mal de Alzheimer por oito anos, Amaral Gurgel faleceu aos 82 anos na sexta-feira, dia 30 de janeiro de 2009, em São Paulo.
João Augusto Conrado do Amaral Gurgel — engenheiro, inovador, criador, Brasileiro ousado que acreditou no país. O sonho dele não acabou. Pelo contrário, nas ruas, onde um Gurgel for visto ele sempre será lembrado.
Este texto foi atualizado considerando o crescimento da indústria de veículos elétricos. O original foi publicado em fevereiro de 2009 no Portal Megaminas.
Sou Sérgio Rodrigues e semanalmente escrevo esta coluna sobre Automóveis Antigos aqui na página da Rádio Cultura de Santos Dumont.
Até a próxima.
