Meu fascínio por automóveis antigos vem da infância. Desta vez, as lembranças me levaram aos anos 1960, mais precisamente à oficina do “seu” Jair Borges no bairro Eldorado aqui em Juiz de Fora MG. “Seu” Jair era um homem com um calombo grande atrás do pescoço, voz alta e um tique nervoso de tossir e raspar a garganta o tempo todo. Era bravo! Mas também um excelente mecânico. Nunca lhe faltavam carros e caminhões para consertar.
A oficina ficava perto da minha casa. Era pequena, na garagem da casa dele e, como não comportava mais que dois veículos, o serviço era feito na rua mesmo. Foi lá que, uma única vez, vi dois carros exatamente iguais: um azul e outro grená com teto branco. Chamavam atenção por serem sisudos, com “cara de bravo” ( que nem “Seu” Jair ), graças à curva do para-brisa dianteiro que descia em direção ao centro. Eram dois KAISER-FRAZER, fabricados em 1951.
Nunca mais vi outro igual — nem mesmo nos encontros de carros antigos mais famosos que já participei.
A história por trás do KAISER-FRAZER
Curioso, fui atrás de mais informações sobre esse carro e me surpreendi com uma história interessante. KAISER-FRAZER é a fusão dos nomes de Henry Kaiser e Joseph Fraser, dois empresários americanos bem-sucedidos do século XX fundadores da Kaiser-Frazer que começaram a produzir carros em 1946.
Um texto americano chegou a chamar a KAISER-FRAZER CORPORATION de “esquisitice da indústria automobilística mundial”, por se tratar de uma corporação com duas identidades no automobilismo. Mas, segundo a mesma fonte, a KF surgiu num momento oportuno logo após a guerra. A Kaiser-Frazer começaria do zero enquanto os outros fabricantes tinham que trabalhar para modernizar seus antigos modelos.
A KAISER-FRAZER foi gigante entre as montadoras norte-americanas. Em 1953, adquiriu a Willys Overland, fabricante de utilitários como o Jeep. Até 1955, a corporação construiu e vendeu 745.928 carros. Em 1956, deixou de fabricar a linha de carros de passeio. E em 1963, mudou de nome para KAISER-JEEP, passando a fabricar apenas utilitários.
Ou seja, quando você estiver dirigindo um Jeep, na realidade estará ao volante de um KAISER — legado de Henry Kaiser.
Memória e saudade
Para este jornalista, o KAISER-FRAZER nunca vai deixar de ser um “carro sisudo”. Quem sabe, quando menos esperar, eu o veja novamente.
Quanto ao “seu” Jair Borges, estará sempre na minha memória. Apesar de bravo, nunca deixou de responder — do jeito dele — às perguntas de um menino curioso que ficava alí por perto querendo saber um pouco mais sobre os carros que ele consertava.
Obrigado “seu” Jair.
Deixo aqui duas dicas de textos, a fonte da imagem publicada e a história da Kaiser-Frazer com informações completas de todos os modelos lançados pela montadora americana de 1947 a 1955.
https://www.classic.com/m/kaiser-frazer/kaiser
https://richardlangworth.com/kaiser-frazer-1
Sou Sérgio Rodrigues e semanalmente escrevo esta coluna sobre Automóveis Antigos aqui na página da Rádio Cultura de Santos Dumont.
Até a próxima.
