
A possível redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 prometem provocar uma das maiores mudanças nas relações de trabalho dos últimos anos. E, antes mesmo de uma decisão definitiva do Congresso, as empresas já começam a calcular os impactos da medida.
A PEC 221/2019, que prevê a redução gradual da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, além de dois dias de repouso remunerado, avançou no Senado. A proposta foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça e agora aguarda votação no Plenário.
Mas o que está em discussão não é apenas uma mudança no calendário de trabalho. É uma alteração que poderá mexer diretamente com custos, escalas, contratação de funcionários, produtividade e organização das empresas.
Uma pesquisa da Carreira Muller, realizada com 486 companhias, revela o tamanho da preocupação do setor empresarial. 90,13% das empresas consultadas esperam algum impacto caso a PEC seja aprovada. E 72,83% consideram que esse impacto será alto ou muito alto.
O principal alerta é financeiro: 82,96% das empresas apontam o aumento dos custos trabalhistas como uma das maiores preocupações. Em seguida aparece a necessidade de reorganizar escalas e turnos, citada por 77,63% das companhias.
E existe outro ponto que merece atenção: 72,43% das empresas pesquisadas possuem atualmente trabalhadores submetidos à escala 6×1.
O desafio será reorganizar a produção
Imagine uma empresa que funciona praticamente todos os dias da semana. Se o trabalhador passar a ter uma jornada menor e dois dias de descanso remunerado, será necessário reorganizar equipes, horários e turnos.
Em alguns casos, isso poderá significar contratação de novos trabalhadores. Em outros, será necessário investir em tecnologia, automação e produtividade.
A pesquisa mostra que as empresas já estudam alternativas. A revisão dos turnos aparece entre as principais estratégias, seguida pela contratação de novos colaboradores, mudanças nos processos e investimentos para aumentar a produtividade.
O impacto poderá ser ainda maior em setores como produção, logística, atendimento ao cliente e manutenção, áreas que dependem diretamente da presença de trabalhadores e do funcionamento contínuo das operações.
Pequenas empresas enfrentam um desafio ainda maior
Se grandes empresas possuem estruturas mais robustas para enfrentar mudanças, a situação pode ser diferente para pequenas e médias empresas.
Segundo o levantamento, apenas 3,42% das empresas desse grupo se consideram totalmente preparadas para uma eventual mudança na jornada de trabalho.
Isso significa que milhares de negócios poderão precisar fazer contas, rever contratos, reorganizar funcionários e avaliar se será necessário contratar mais pessoas.
E há uma questão que não pode ser ignorada: quem vai pagar essa conta?
Se os custos aumentarem, as empresas poderão tentar compensar parte desse impacto por meio de ganhos de produtividade, redução de outras despesas, automação ou contratação de novos trabalhadores. Dependendo do setor e do modelo de negócio, também poderá haver reflexos nos preços de produtos e serviços.
Mais qualidade de vida ou maior pressão sobre as empresas?
É justamente aí que está o centro de um dos debates mais importantes sobre o futuro do trabalho no Brasil.
Para os trabalhadores, a redução da jornada pode representar mais tempo para a família, descanso, lazer e vida pessoal.
Para as empresas, entretanto, a mudança exige planejamento para garantir que a redução das horas trabalhadas não resulte simplesmente em aumento de custos ou redução da capacidade de produção.
O grande desafio será conciliar essas duas necessidades.
Não basta simplesmente reduzir horas no relógio. Será preciso discutir produtividade, organização, tecnologia, qualificação profissional e condições para que as empresas consigam continuar produzindo e gerando empregos.
A PEC 221/2019 ainda precisa passar pelo Plenário do Senado e seguir as demais etapas do processo legislativo. Portanto, o formato definitivo da eventual mudança ainda não está estabelecido.
Mas uma coisa já pode ser percebida: o fim da escala 6×1 deixou de ser apenas uma discussão distante. Ele já entrou no radar das empresas e começa a exigir planejamento.
E quando falamos de uma mudança que pode atingir milhões de trabalhadores e empresas, planejamento é fundamental.
Porque mudar a jornada de trabalho significa muito mais do que mudar uma escala. Significa mexer na organização da economia, na rotina das empresas e na vida de milhões de brasileiros.
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